Pessoal

O QUE APRENDI COM A MORTE?

Esse é um post dolorido, mas libertador ao mesmo tempo. Ninguém gosta de falar sobre a morte, mas ela inevitavelmente se faz presente em nossas vidas, seja pelo amigo do amigo do nosso amigo que perdeu um familiar ou quando ela leva de nós, pessoas próximas que tanto amamos.

Meu pai morreu repentinamente, há quatro anos. Eu tinha uma ligação sentimental de outras vidas com ele, era a pessoa com quem eu mais me identificava e com toda a certeza a que mais me amou. Incondicionalmente, do jeito que eu era e respeitando toda a minha personalidade rebelde.

Acho que eu nunca tinha me sentido verdadeiramente a vontade para falar sobre assunto. O meu luto foi inverso: enfiei a cara no trabalho e na faculdade e quanto mais atividades no dia eu tivesse, era melhor. Elas aplacavam e encobriam a dor, mas ela nunca deixou de existir, apenas tomou formas diferentes.

Eu tinha 21 anos, estava na faculdade e, de repente, como num passe de mágica a minha vida, que sempre tinha sido boa apesar das dificuldades, virou um inferno. Ele ficou durante 103 dias dentro do hospital (entre UTI e quarto) e durante esses três meses que antecederam sua partida, eu sofri com o medo, desespero e descontrole que a morte impõe (para quem fica, claro).

Naquele 28 de maio eu trabalhei, voltei para casa, sentei ao computador e escrevi por horas. Jantei com a minha mãe e ao me deitar, senti uma vontade estranha de chorar. Um choro agoniado, mas segurei. Minha mãe me disse para ficar tranquila que no feriado que seria “depois de amanhã”, eu poderia ver meu pai e a agonia passaria. Não teve depois de amanhã.

As poucas horas que tive com ele naquele velório foram um monólogo. Frio e lotado de lágrimas inacabáveis. Eu acredito no reencontro, no depois, na outra vida, mas a separação e o desespero em saber que tudo o que havíamos planejado fazer juntos jamais aconteceria, me consumia.

Eu nunca vou dizer que superei. Porque não se supera a perda de uma pessoa que simplesmente é a sua vida. Eu sou meu pai em cada essência, detalhe e jeito. Mas a morte dele, depois que entendi e passei pelo luto, me fez mudar muito (para melhor)  e, entender certas coisas me fez não entrar em parafuso e em depressão.

 

O MUNDO NÃO PARA POR SUA CAUSA

A saudade de alguém que amamos e que parte nunca acaba e, não é possível voltar no tempo e reviver o passado. E o mundo continua “girando loco”, mesmo que o nosso pareça ter parado no instante da perda. Com o luto aprendi que era uma escolha minha ficar chorando ou fazer coisas que meu pai se orgulharia se eu fizesse. Escolhi a segunda opção.

AS PESSOAS NÃO ESTÃO PREOCUPADAS COM OS SEUS PROBLEMAS
Pode parecer grosseria, mas é a realidade. Pode parecer surreal e até falta de respeito, mas por mais que alguém seja próximo de você, essa pessoa depois de um tempo vai continuar focada nos problemas dela. E você não pode ficar lamentando e chorando. Entenda e respeite seu tempo, mas não exija isso dos outros.

VOCÊ APRENDE A VIVER ESSA NOVA FASE (SEM A PESSOA)

Não é insensibilidade. Eu demorei anos para parar de sentir a presença do meu pai na casa, de ligar para ele quando tinha uma novidade e de colocar três pratos à mesa no jantar. Mas eu consegui parar. É perda de tempo ficar em um círculo eterno de choro, tristeza, revolta e lamentação, por uma situação que não irá mudar. Isso não exclui o fato de eu continuar amando meu pai como sempre, ter a certeza que ele me acompanha.

 EU APRENDI A SER ADULTA
Nunca tinha lavado minha roupa, feito minha comida, me preocupado com a lista do supermercado ou coisas comuns até então. Meu pai era o respaldo da minha mãe nisso. Eu nunca tinha visto como se contam os quilowatts da conta de energia ou o relógio de água. Eu aprendi que uma hora ou outra as responsabilidades chegam e você precisa virar adulto. E isso é bom, troquei até o chuveiro de casa sozinha uma vez.

 

APRENDI A SER GRATA POR TUDO QUE TENHO
Quando você passa por uma situação de perda, você aprende a ser grato por tudo que ainda tem a ser feliz com isso. Durante as visitas ao meu pai na UTI e no quarto, conheci muitas famílias com grandes dificuldades, com histórias de sofrimento. Isso me fez agradecer todos os dias pelo simples fato de ter um teto, uma família e um trabalho e, mais que isso aprendi a ter empatia com a história de cada pessoa, pois não sabemos a luta de cada um.

 

APRENDI QUE A DIFICULDADE NÃO É DESCULPA PARA DESISTIRMOS
Menos de uma semana depois da morte do meu pai eu estava na faculdade para iniciar uma semana de provas. Era fim de semestre e meu pai jamais aceitaria que eu não gabaritasse as provas. Eu tinha duas escolhas: me entristecer ou enfrentar a vida (que tinha ido para um nível HARD após esse acontecimento). Eu escolhi enfrentar a tristeza, as dificuldades e lágrimas. Não vou mentir que, depois de dias cheios de trabalho e estudo, eu chorei muito com a cabeça afundada no travesseiro. Dói, mas o sofrimento as vezes nos purifica e nos transforma e, precisamos tirar algo de bom dele.

 

APRENDI QUE A FAMÍLIA NÃO TEM A VER COM SOBRENOME E SANGUE, MAS COM AMOR
Quando a gente perde alguém, infelizmente descobrimos que nem sempre a nossa família é a nossa família. Muita gente se distancia de você, nem quer saber da sua existência. Mais uma vez eu tive escolhas e, entre elas escolhi trazer para perto de mim as pessoas que me surpreenderam estando ao meu lado, mesmo não sendo da minha família. E quem não estava nem aí para mim, eu simplesmente ignorei.

 

A MORTE NÃO É O FIM, ELA É UMA FASE
Não quero e nem vou questionar ninguém sobre religião ou o que acreditar. Mas eu sei que um dia eu verei meu pai novamente e poderei dar um abraço nele que fiquei devendo. E sei que na verdade essa separação nossa é temporária e que jamais poderei me esquecer dele. As vezes estou sozinha e consigo escutar claramente a voz dele me chamando e sei que quando eu tiver meus 50, 60 anos, lembrarei dele. As pessoas que amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós.

Espero que esse post sirva de ajuda para alguém que esteja passando por essa fase difícil. Sei que é impossível medir a dor de alguém ou algo parecido, mas acredite, isso vai passar e as boas lembranças ficarão na memória do coração.

 

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